NOSSODIA Online
NOSSODIA Publicidade
Londrina, 26 de Setembro de 2017
nossodiaadia

BANG BANG DA VIDA REAL - Londrina tem quase 100 assassinatos no ano

Número de homicídios supera em 40% o mesmo período de 2016. Média de julho foi de quase um morto a cada dois dias; mês de janeiro foi o mais sangrento

10/08/2017

Gustavo Carneiro/Arquivo Folha  17-05-2017


Londrina está prestes a atingir 100 assassinatos em 2017. Até o fechamento desta edição, homicídios dolosos, latrocínios (roubo seguido de morte) e óbitos em unidades de saúde (após lesão corporal) somaram 98 casos. Número 40% superior ao mesmo período do ano passado, quando a cidade registrou 70 casos. Julho de 2017 chegou ao fim com 15 assassinatos. Em 2016, apenas seis ocorreram nos mesmos 31 dias. Esse resultado é um levantamento exclusivo elaborado pela reportagem, que não inclui vítimas de acidentes.
Até o fechamento desta edição, cinco latrocínios teriam ocorrido na cidade. O último na madrugada de segunda-feira (7). O comerciante Fernando José Jora, 27 anos, foi morto a tiros em frente ao próprio imóvel, na rua Caroline Vendrame Vaz Primo, Jardim Continental, na zona Norte. Um dos tiros atingiu o tórax da sua esposa, Adriana de Campos, 32. Ela foi socorrida e permanece internada no Hospital Evangélico. A Polícia Civil investiga a participação de três pessoas no crime. No início da semana, agentes da 10ª Subdivisão Policial prenderam um dos suspeitos, um jovem de 27 anos, no Residencial Vista Bela, na mesma região.
Janeiro é o mês mais violento do ano, com 17 óbitos. Fevereiro não ficou muito atrás. Em 28 dias, 16 pessoas perderam a vida violentamente. Julho somou 15. Março e junho somaram 14 mortes cada um. Maio terminou com 12 óbitos. Até o momento, abril foi o menos sangrento do ano: oito mortes. Porém com grande repercussão, marcado pelo ataque do guarda municipal Ricardo Leandro Felippe, no dia 3. Ele é apontado como autor dos homicídios de Vitor Espinosa Gouveia Siena dos Reis, 16 anos, Ana Regina do Nascimento Ferreira, 34, e Valdir Siena, 58. Mortos a tiros. Valdir ainda foi hospitalizado, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu no dia 10 de abril.
Do 1° dia do ano até 31 de julho, 16 pessoas foram mortas por policiais em Londrina. Ainda de acordo com o levantamento da reportagem, 10 mulheres foram mortas. Em 2017 pelo menos nove adolescentes foram assassinados no mesmo período. Número este que já superou os 12 meses de 2016, quando sete menores de idade morreram. (Paulo Monteiro/NOSSODIA. Colaborou Rafael Machado)

Divergências
A reportagem solicitou para a Sesp (Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná) os números oficiais de homicídios registrados em Londrina até o último dia de julho. No entanto, por meio de assessoria de imprensa, a Sesp afirma que a última estatística divulgada é referente ao primeiro trimestre do ano (Relatório de Mortes) e que não tem condições de repassar os números dos sete meses. A assessoria da Sesp informa que as mortes violentas são divulgadas separadamente: homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e roubo seguido de morte (latrocínio).
Segundo a estatística já divulgada pela secretaria, os três primeiros meses somaram juntos 27 mortes violentas, sendo 24 homicídios dolosos (nove em janeiro, oito em fevereiro e sete em março). Relatório diferente da reportagem, que, no mesmo período, contabilizou 47 mortes violentas, três latrocínios (um em janeiro e dois em março). O levantamento da reportagem soma 98 casos de mortes violentas em 2017. (P.M.)

‘Família de Josiane está despedaçada’, conta tia
No mês de julho, a brutalidade dos criminosos chamou a atenção. Como no caso de Lucas Augusto Clementino, 21 anos, morto no dia 19. Além dos ferimentos na região da cabeça, o jovem estava com o corpo carbonizado aos pés de uma velha seringueira no Marco Zero, zona leste. Outro caso emblemático vitimou a dona de casa Josiane de Souza, 35. No dia 1° de julho, ela foi encontrada morta em uma estrada rural na zona sul de Londrina, Distrito de São Luiz. A vítima foi estrangulada. Passional seria a motivação do crime. O suspeito, Anderson Luiz Vieira, seria seu ex-companheiro, que não aceitava o fim do relacionamento. Ele foi detido no dia 13 de julho, no interior de Rondônia.
A dona de casa morava com os cinco filhos (idades entre quatro e 15 anos) na zona leste. "A família de Josiane está despedaçada", revela a aposentada Marilda Peixoto Duarte, 62 anos. Muito mais que uma tia, Marilda foi responsável pela criação de Josiane dos 12 aos seus 18 anos, depois que ela perdeu a mãe. Josiane casou-se duas vezes. Atualmente, seus descendentes vivem com o primeiro marido dela: pai de três dos seus cinco filhos. "O homem é cadeirante e não tem condições de trabalhar", conta Marilda. A família está passando por dificuldades financeiras. Segundo ela, os filhos sofrem com a ausência de Josiane, que era a principal referência deles.
"São três meninas e dois meninos. Todos sentem muitas saudades dela. Visito sempre eles e sei como sofrem. Me chamam de avó", diz a tia Marilda, com a voz embargada. Apesar de humilde, Josiane sempre estimulou a família a estudar. "Sua morte pode comprometer o futuro de muita gente. Ela tinha o sonho de ver a filha mais velha formada", relembra.
Sobre o relacionamento com o suspeito do homicídio, Marilda ressalta que a sobrinha não deixava transparecer qualquer sofrimento. "Ninguém imaginava que Anderson seria capaz de um crime tão bárbaro. Ele viveu com Josiane durante mais de um ano, mas estavam separados há três meses. Ele a prejudicou muito, vendeu até a casa popular que Josiane tinha no Jardim Abussafe", relata. "A Josiane viveu um inferno desde que ele apareceu na vida dela. Eu não sabia como era o relacionamento deles, ela não me falava. Só descobri depois da morte. Os filhos contaram que a mãe pedia silêncio, pois não queria me ver sofrendo", relembra. (P.M.)