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Londrina, 17 de Outubro de 2017
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Nossa crônica

A rua

25/09/2017
Por Cláudia Bergamini



A rua trazia as marcas do tempo. Casas de madeira denunciam a resistência do passado sobre as edificações em alvenaria. Era um dos espaços mais antigos da cidade. Ao passo que meus pés percorriam as calçadas estreitas, meus olhos deparavam-se com as janelas de madeira, provavelmente fechadas com taramela; a pintura embaçada não escondia os anos de sol e chuva sobre ela. As casas eram tão próximas da rua que, não fosse o barulho de ônibus e carros, da calçada se ouviria a respiração do morador. Na esquina havia uma padaria, prédio reformado, vidros e granito sustentavam a hodiernidade do lugar, os olhos, porém, detinham-se na barbearia do outro lado da rua. Cadeira em ferro, estofado em couro já trincadinho por falta de hidratação, sistema mecânico para subir e baixar o assento, a exigir do barbeiro umas gotinhas de esforço. Na bancada de madeira, já sem verniz, uma toalhinha branca onde estavam dispostos tesoura, lâminas, pente. Quão tolo é o homem que não tem olhos para o passado. O tempo deixa marcas que caminham para além da sua passagem. Diante daquela rua em que desfilava o passado, meu coração se pôs grande e a imaginação viajou longe. Fiquei como criança sonhadora a pensar em quantas pessoas por ali já circularam, quantos jovens se sentaram naquela cadeira e dali saíram a encantar corações. Corri uma vez mais os olhos, a sapataria. A placa de madeira parecia bem mais nova que a porta que a sustentava, nela estava escrito: ‘sapataria e consertos’. Já usei sapatos feitos à mão, cheiro de couro, marcas artesanais que resistiram ao tempo e ao impacto industrial. Havia outra placa que li várias vezes, porque me soou tão doce o ‘volto já ‘ nela grafado. Pensei no tempo. Em como tudo muda. A paisagem se perde, a cidade de hoje destoa da de ontem, pensei na tolice humana em apagar o que foi sem perceber que o passado sempre dá um jeito de voltar e nos rondar, nos inebriar e nos invadir por meio da saudade.